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Problemas de Jogo em Jovens em Portugal: Dados, Causas e Prevencao

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Este e um artigo diferente dos outros que escrevo. Nao e sobre como apostar melhor – e sobre uma realidade que qualquer pessoa que trabalha a sério neste setor tem de conhecer e abordar com honestidade. O jogo problematico em jovens em Portugal e uma questao documentada, com dados concretos, e merece tratamento rigoroso em vez de uma nota de rodape.

Escrevo isto sem condescendencia e sem alarmismo. A maioria dos jovens portugueses que joga dinheiro – seja em apostas desportivas, scratch cards ou outras formas – faz-o sem desenvolver problemas. Mas uma minoria significativa esta em risco, e os sinais de alerta não são sempre obvios para quem esta do lado de fora.

Dados sobre jogo em jovens em Portugal: o que os estudos mostram

O estudo ECATD de 2024 – um levantamento europeu sobre consumo de substancias e comportamentos de risco em adolescentes – revelou que 18% dos jovens portugueses entre os 13 e os 18 anos apostaram dinheiro no último ano. Joana Teixeira, presidente do ICAD, citou este número como “bastante relevante” porque coloca Portugal acima da média europeia neste indicador específico.

É importante contextualizar este número: “jogar a dinheiro” inclui formas muito diversas – desde uma aposta pontual num jogo de cartas com amigos ate apostas regulares em plataformas online. Nem todo o jogo por dinheiro e jogo problematico. Mas a prevalência elevada cria uma população de risco significativa em números absolutos.

O perfil demográfico dos apostadores ativos em Portugal – a maioria abaixo dos 45 anos, segundo dados do SRIJ – sugere que muitos utilizadores das plataformas legais são jovens adultos que iniciaram o contacto com apostas durante a adolescencia, em formas não reguladas.

O estudo com universitarios: dados que surpreendem

Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, conduzido pelo CINTESIS com 1.123 estudantes do ensino superior público, encontrou resultados preocupantes. Cerca de 3,1% dos estudantes apresentavam critérios de dependência de jogo – um nível clinicamente significativo. Mais alarmante: 16,6% apresentavam sinais de risco elevado de jogo patologico.

Estes números significam, como foi referido pelo próprio FMUP, que “quase um em cada cinco estudantes do Ensino Superior público do Porto pode apresentar dependência de jogo” se considerarmos o espectro total de comportamento de risco. E um dado que deve ser lido com cuidado metodológico – o estudo focou-se numa população universitaria específica em Porto, que não e necessariamente representativa de toda a população jovem portuguesa. Mas é suficientemente robusto para indicar uma tendência real.

O que e particularmente relevante neste estudo e que a população universitaria e, em principio, uma com acesso a informação e recursos cognitivos para tomar decisões informadas. A prevalência de comportamento de risco mesmo neste grupo sugere que o problema não e simplesmente de falta de informação – e algo mais complexo, ligado a impulsividade, ao contexto social e a relacao com incerteza e recompensa.

Fatores de risco: o que prediz vulnerabilidade

A investigação sobre jogo problematico em jovens identifica consistentemente um conjunto de fatores que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de comportamento problematico. A maioria dos jovens portugueses esta exposta a pelo menos alguns destes fatores.

O ambiente social imediato e um dos mais relevantes: ter amigos ou familiares próximos que apostam regularmente aumenta significativamente a probabilidade de um jovem apostar. O jogo e um comportamento social antes de ser um comportamento individual – comecar a apostar “para acompanhar o grupo” e um padrao de entrada muito comum.

A presenca constante de publicidade a apostas em contextos de desporto – patrocinios de clubes, anuncios durante transmissoes de jogos, influenciadores em redes sociais – normaliza as apostas como parte integrante do consumo de desporto. Esta normalização e particularmente eficaz em adolescentes, cujo senso crítico face a publicidade esta ainda em desenvolvimento. O contexto cultural importa: jogar e “uma parte estruturante da cultura ocidental”, como uma psiquiatra do ICAD descreveu, e ao juntar o jogo a esta identidade cultural, o risco fica camuflado.

A maioria dos jovens que desenvolve problemas de jogo tem também outros comportamentos de risco associados – consumo de alcool ou substancias, comportamentos impulsivos, dificuldades de regulação emocional. O jogo raramente e um problema isolado num jovem; e frequentemente parte de um quadro mais alargado.

Medidas de prevenção: o que funciona e o que existe

A barreira mais concreta em Portugal e a verificação de idade obrigatória nos operadores licenciados. O SRIJ exige que todos os operadores verifiquem a identidade e a idade dos utilizadores – o que significa que, em teoria, nenhum menor consegue criar conta num operador legal. O mecanismo funciona para plataformas reguladas, mas não impede o acesso a sites ilegais não bloqueados ou a formas de jogo não digitais.

Programas de educação para a literacia de jogo – ensinando jovens a reconhecer mecanismos de manipulação psicologica nos produtos de jogo, a compreender a matematica das probabilidades, e a identificar comportamentos de risco – tem evidência empirica de eficácia moderada. Nao eliminam o problema mas reduzem a vulnerabilidade.

O ICAD tem linhas de apoio e servicos de consulta específicos para jogo problematico. Para pais e educadores que reconhecem sinais de risco num jovem, o contacto com profissionais especializados – e não a tentativa de resolucao isolada – e o caminho mais eficaz.

A restrição de publicidade a apostas em horarios de grande audiencia juvenil e outra medida que tem ganho discussão em Portugal, a semelhanca do que ja aconteceu em outros paises europeus. O debate politico contínua aberto.

Uma nota sobre o papel da familia e da escola: a investigação sobre prevenção eficaz de jogo problematico em jovens destaca consistentemente o papel dos adultos de referência – pais, professores, treinadores desportivos – como o fator mais protector. Conversas abertas sobre o funcionamento das apostas, sobre a matematica das probabilidades e sobre os mecanismos de manipulação psicologica das plataformas, conduzidas antes da exposicao, são muito mais eficazes do que intervencoes corretivas após o inicio do comportamento problematico.

Para informação sobre as ferramentas de jogo responsavel disponíveis para todos os jogadores, incluindo jovens adultos, consulta o guia sobre jogo responsavel em Portugal.

A que idade se pode comecar a apostar online em Portugal?
A idade mínima legal para apostas online em Portugal e 18 anos. Todos os operadores com licença SRIJ são obrigados a verificar a identidade e a data de nascimento dos utilizadores no registo, o que impede menores de aceder as plataformas legais. Esta verificação e um requisito inegociavel do processo de licenciamento.
Que medidas existem para proteger menores nas plataformas de apostas?
Operadores licenciados em Portugal são obrigados a verificar a idade no registo (KYC), recusar transações de menores, não dirigir publicidade especificamente a menores, e ter links visiveis para recursos de jogo responsavel. O SRIJ supervisiona o cumprimento destas obrigações e pode revogar licenças em caso de infrações graves.
Como identificar sinais precoces de dependência em jovens?
Os sinais mais frequentes incluem: preocupacao constante com apostas ou resultados, aumento progressivo do tempo e dinheiro dedicados ao jogo, irritabilidade ou ansiedade quando não pode jogar, mentir sobre quanto joga ou perde, negligenciar estudos, trabalho ou relacoes por causa do jogo, e apostar para recuperar perdas anteriores. A presenca de varios destes sinais em simultâneo e um indicador de que há um problema que merece atenção profissional.